COLEÇÃO NORDESTE

Coleção desenvolvida para a feira de arte e design MADE 2018 em colaboração com artesãos de Tracunhaém-PE e Tibau do Sul -RN.

 

OLHO GRANDE

Quando era criança, vez por outra ouvia mainha pedindo para a minha tia vir me benzer. 

Ela trazia folhas de peão roxo e começava o ritual passando pelo corpo fazendo o movimento do sinal da cruz. A oração repetida se convertia num mantra que lentamente me fazia levitar com intervalos de inúmeros bocejos. 

Ao final, as folhas do peão murchavam o que de acordo com a crença era sinal que o olho grande estava saindo de mim, as pálpebras começavam a dançar até que me entregava numa sensação de relaxamento profundo que me fazia flutuar.

Esse resgate da minha infância em Pernambuco foi a inspiração para a luminária Olho Grande convertida em amuleto moldada com barro e água pelas mãos do mestre Heleno, secada ao seu tempo e cozida em forno a lenha, tudo em Tracunhaém, o berço da arte em barro.

 

 

 

DINHEIRO NÃO CAI DO CÉU

Essa instalação nasceu a partir de uma visita à cidade de Tracunhaém em Pernambuco. Estava conhecendo o artesanato local, entrando nos mais diversos tipos de ateliers e alguns me chamavam à atenção. 

Curiosamente, passei a observar os objetos quebrados, peças reprovadas ou antigas e, nesse entra e sai, percebi que muitos oleiros estavam produzindo pequenos cofres de porquinhos. 

Comecei a documentar todo o processo e, ao final, instigada pela imensa curiosidade perguntei: por essa produção em massa de porquinhos na cidade? A resposta foi ainda mais instigante. Me explicaram  que por ser uma peça que tem um curto período de vida, enfim, porque é um cofrinho que vai ser aberto, ou seja, quebrado para realizar um desejo e, assim, recebem sempre muitas encomendas. Investiguei mais o processo, fotografei os detalhes e encontrei a peça que se tornou a inspiração para a obra: o corpo do porco recém saído das mãos do mestre oleiro, sem pés nem orelhas me remeteu ao quadro “les rencontres naturelles” do pintor surrealista Renné Magritte.

Voltei pra casa com a cabeça fervilhando, necessitava materializar essa visita tão estimulante. Nas viagens seguintes nos aproximamos da família Pedrosa, que mantém viva há mais de 50 anos a tradição do trabalho com o barro, para entender o processo das mãos do mestre até o forno e acabamento. O projeto foi surgindo entre muitas conversas e um emocionante intercâmbio de saberes.

 

BOSQUES

A curiosidade em aprender a técnica do trançado local, nos levou a esbarrar com a generosidade do Antônio, único mestre interessado em compartilhar o seu saber. 

Nos embrenhamos juntos no coração da floresta nativa para descobrir as possibilidades do cipó e da taboca, como as varas de bambus são chamadas na região. 

A peça foi crescendo pouco a pouco, fruto dos nossos encontros cheios de sorrisos e experimentação com outros materiais do mato, até o momento em que no cesto cresceu um bosque. A luz chegou depois, e com ela o jogo envolvente de sombras que trazia o lado lúdico para fechar a composição sobre uma delicada base dourada.

 

 

SONHADORES

Cabeças que sonham, memórias que se arborizam, sinapses cerebrais que conectam varias dimensões cruzadas e lhes transportam para seu próprio mundo imaginário.